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O tal do amor nos pertence?

ECOA

11/01/2020 04h00

Sinto que estou num momento da minha vida em que o tal do amor finalmente está fazendo sentido. Sabe aquela sensação boa de que algo saudável te rodeia? Pode ser só um começo, mas parece que já dura um bom tempo. Pode ser que eu precise manter a calma, e estou disposta a isso.

É o que eu queria falar hoje. Há um tempo, dei uma entrevista em que dizia não acreditar neste amor romântico dos filmes melosos. O amor sempre me pareceu mais próximo daqueles romances dos filmes franceses em que há, sim, uma relação de entrega, mas com pé no chão. Quando se vive a afetividade de forma desvirtuada, como se as pessoas apenas usassem as outras e as jogassem fora, como um brinquedo, fica difícil acreditar em relações sólidas em que o tal do amor prevalece. E ainda mais numa sociedade como a nossa.

E me lembro de quem não pode manifestar seu amor, por medo de represálias na comunidade em que vive. Há países em que a homossexualidade ainda é um crime punível com a morte e há o Brasil, onde um beijo trivial é condenado como safadeza, como escrevi em textos anteriores. Não duvido que essas pessoas também gostariam de apedrejar homossexuais nas ruas, para compensar a amargura de suas vidas tristes e presas a convenções. Triste!

Em outra entrevista, falei sobre o papel que o amor pode (ou não) ter sobre as pessoas trans, tão marginalizadas até mesmo em algo tão puro como um relacionamento. O mero fetiche pode ser superado? A curiosidade pode dar lugar a um sentimento verdadeiro? São questões que não sei se podem ser respondidas em mais ou menos dois mil toques. Mas vamos desenvolver.

Nós, pessoas LGBT+, aprendemos desde cedo que nosso amor é errado e impuro. Que vamos para o "inferno". Alguns chegam a aprender que é melhor manter a castidade para não arder. Ou seja, se anular para evitar a fúria de um Deus que no fundo não é amor. E assim vivemos nossas relações neste mundo de "amores líquidos": sem envolvimentos, sem sentimentos, sem sal…

Sinto que a própria comunidade deveria fazer uma autocrítica. Será que o tal do amor para nós é tão errado que devemos não amar e ser indelicados, como se pode ver em qualquer aparato de busca de relacionamentos? Será que também não vamos nos abrir ao sentimento e apenas satisfazer necessidades fisiológicas? Será que queremos isso? Ou no fundo quem está agindo de forma ridícula ainda tem dificuldade de desaprender esta moral que nos condena, e pior, a reproduz?

Sobre a autora

Estudante de Letras, Mari Rodrigues participa da Frente de Diversidade Sexual e de Gênero da USP. É apaixonada por comida do norte e por reciprocidade nas relações. Ainda está decidindo o que vai fazer com sua vida.

Sobre o blog

Falar de si e falar de um mundo melhor. Como as experiências pessoais de uma pessoa que já enfrentou tanto por ser quem é podem contribuir para que o mundo seja mais diverso e inclusivo?

Marina Rodrigues