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ECOA

16/11/2019 04h00

Um amigo recomendou que eu falasse sobre educação. E me pergunto sobre o que exatamente eu posso falar nesse assunto. Oportunamente, na semana passada tivemos a segunda prova do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio).

Lembro-me da polêmica desnecessária que uma questão do exame causou no ano passado. Era um texto que falava sobre o pajubá, uma forma específica de comunicação entre pessoas LGBT. De reações acaloradas a tentativas de desideologizar o exame, muita gente só viu a polêmica e não leu sobre o que se tratava a questão, que era uma indagação asséptica sobre o caráter sociolinguístico do tal dialeto.

Há pessoas que se incomodam só de ouvir a palavra gênero. Uma história muito engraçada e, ao mesmo tempo, assustadora contada a mim fala de uma discussão desnecessária numa sessão parlamentar, pois citava gênero alimentício; e a famigerada palavra não podia sequer ser pronunciada na frente de um cidadão. Engraçada, pois as pessoas não se dignam mais a entender contextos. Assustadora, pois as pessoas não se dignam mais a entender contextos.

Lembro-me também de uma aula interessante que tive recentemente sobre a questão do letramento e sobre essa linha tênue que divide uma pessoa letrada, aqui entendida como aquela que lê e escreve além do próprio nome e entende o que está lendo e escrevendo, de uma pessoa analfabeta, que, pela definição do censo brasileiro, é aquela que não sabe escrever um bilhete simples.

Em outra aula, houve críticas à forma como boa parte dos estudantes de Letras, cuja esmagadora maioria terá como saída a docência, escreve mal e tem uma noção muito fraca de gramática, e que isso depõe contra os próprios estudantes, tão atacados nestes últimos tempos.

Estas informações juntas e outras observações mostram que o brasileiro médio vai muito mal quando a questão é ler e interpretar textos e construir raciocínios críticos.

Basta ver qualquer caixa de comentários: muito lugar-comum e pouca coisa que realmente possa se aproveitar.

As críticas já não são mais construtivas e sim reforçadores de convicções violentas, facilitadas por este círculo vicioso formado pelas condições precárias da educação e pela instrumentalização da idiotice por pessoas mal-intencionadas. Não sou a pessoa mais gabaritada para falar sobre educação, mas enquanto as condições acima forem facilitadas, polêmicas desnecessárias continuarão acontecendo.

Sobre a autora

Estudante de Letras, Mari Rodrigues participa da Frente de Diversidade Sexual e de Gênero da USP. É apaixonada por comida do norte e por reciprocidade nas relações. Ainda está decidindo o que vai fazer com sua vida.

Sobre o blog

Falar de si e falar de um mundo melhor. Como as experiências pessoais de uma pessoa que já enfrentou tanto por ser quem é podem contribuir para que o mundo seja mais diverso e inclusivo?

Marina Rodrigues