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Mari Rodrigues

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Quatro tiros contra a sensatez

ECOA

09/11/2019 04h00

Tiro 1. O carinho das pessoas LGBT ainda é motivo de vergonha.

No final de outubro, um homem foi baleado num bar. O motivo: beijou outro homem em um bar. O atirador e outros dois homens, já presos, perguntaram se ele não tinha "vergonha de fazer isso na frente de pais de família. Aí eu me pergunto e depois pergunto a você que está lendo isso: carinho agora é motivo de vergonha? Estamos vivendo uma inversão de valores em que o amor é vergonhoso e a violência é demonstração de respeito.

O Brasil é um país violento. Basta ver o número de pessoas assassinadas todo ano, seja por crimes passionais, latrocínios, acertos de contas, balas perdidas, entre outros. O Brasil é um país ainda mais violento com pessoas LGBT, cujas demonstrações de afeto, ou sua mera existência, se formos falar de pessoas trans, parece dar o "direito" a pessoas que se dizem "de bem" cometerem as mais variadas atrocidades.

Tiro 2. Uma pessoa LGBT ainda não pode andar na rua sem medo.
Atitudes como estas só mostram que ainda estamos longe de ter um mundo igualitário. Quando pessoas andam com medo na rua apenas por ser quem são, vemos que fracassamos como sociedade e que algo precisa ser feito. Tapar os olhos para essa realidade e chama-la de mimimi só serve para perpetuar as violências que são cometidas diariamente contra a população LGBT.

Tiro 3. O Estado ainda é agente perpetuador de preconceitos existentes contra a população LGBT.

Um fato intrigante deste caso é que um dos agressores é policial militar. Exatamente uma pessoa que deveria zelar pela proteção da comunidade. E que não pensou duas vezes em atirar numa pessoa em público porque ela faria algo, em seu juízo, "vergonhoso". E aí vemos que o Estado não cumpre o seu papel como defensor das liberdades fundamentais e da segurança das pessoas LGBT.

Isto acontece quando pessoas que cometem atrocidades são soltas quando cometem crimes de ódio, como provavelmente este policial será logo solto. Isto acontece quando a justiça, ela que deveria proteger os desvalidos, minimiza estupros e assassinatos motivados pelo ódio. Isto acontece quando instâncias provocadoras de políticas públicas para melhorar a vida destas comunidades marginalizadas são desfeitas por governos de viés autoritário.

Tiro 4. Ainda existe muito preconceito contra a população LGBT na sociedade. Basta ver qualquer caixa de comentários de alguém que ouse falar do tema LGBT, ou mesmo de qualquer outro tema polêmico: certas pessoas agem de forma virulenta quando confrontadas com uma realidade para eles inconveniente. Tentar informar as pessoas sobre a naturalidade da situação, que sempre existiu e sempre vai continuar existindo, e tentar educá-las contra o preconceito é nossa missão, que nem sempre será bem sucedida, mas se ela servir para que ao menos uma pessoa não queira apontar o revólver para outra, já teremos atingido nosso objetivo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre a autora

Estudante de Letras, Mari Rodrigues participa da Frente de Diversidade Sexual e de Gênero da USP. É apaixonada por comida do norte e por reciprocidade nas relações. Ainda está decidindo o que vai fazer com sua vida.

Sobre o blog

Falar de si e falar de um mundo melhor. Como as experiências pessoais de uma pessoa que já enfrentou tanto por ser quem é podem contribuir para que o mundo seja mais diverso e inclusivo?

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