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Mari Rodrigues

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Você já foi ao banheiro hoje?

ECOA

02/11/2019 04h00

Sim, é exatamente isso que eu pergunto hoje. Você agora deve estar pensando, "como assim, essa louca quer saber de algo tão íntimo e tão banal"? Pode parecer banal para muitos de nós aqui ir a um banheiro, fazer suas necessidades, puxar a descarga e depois lavar as mãos. Mas, para algumas pessoas, ir ao banheiro pode ser um evento cheio de alegria ou de sofrimento.

O último censo, realizado pelo IBGE em 2010, apontou que mais de 1,5 milhão de residências brasileiras não têm um banheiro. Em meio à pobreza e à falta de saneamento básico, essas pessoas, que precisam fazer suas necessidades ao ar livre, só podem sonhar com o dia em que conseguirão condições de poder usar um vaso sanitário como muitos de nós que temos fácil acesso a um.

Conforme havia dito num texto anterior, é um exercício constante colocar-se no lugar do outro e buscar fazer alguma coisa para melhorar a vida destas comunidades. Há voluntários, ONGs e fundações empresariais que cumprem este papel, apesar disto ser ainda muito pouco frente ao descaso das autoridades com este assunto tão relevante.

Mas não é este o foco do meu texto. Queria falar sobre aquelas pessoas que, mesmo tendo acesso a um banheiro, têm tolhido o seu direito de usá-lo.

Há onze anos, uma mulher transexual foi constrangida pela equipe de segurança de um shopping center a sair de um banheiro feminino, apenas pela sua condição. Proibida de utilizar o banheiro, acabou fazendo suas necessidades nas próprias roupas, o que lhe causou humilhação e sofrimento. Até hoje, corre no Supremo Tribunal Federal um recurso que deve decidir se pessoas transexuais podem utilizar o banheiro que corresponde à sua identidade de gênero, e se a negação desse direito tão primitivo do ser humano é um dano.

Estamos em 2019. E sim, estamos discutindo se as pessoas podem ou não utilizar um banheiro público. Parece tão absurdo isso, mas num contexto em que a existência das pessoas transexuais é posta em xeque, e em que pessoas enchem a boca para dizer que o melhor a se fazer para economizar água é "fazer cocô dia sim, dia não", o questionamento que eu deixo a vocês é o seguinte: é mesmo necessário tudo isso para poder-se respeitar alguém?

O recurso está parado por um pedido de vista. As necessidades das pessoas trans não param.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre a autora

Estudante de Letras, Mari Rodrigues participa da Frente de Diversidade Sexual e de Gênero da USP. É apaixonada por comida do norte e por reciprocidade nas relações. Ainda está decidindo o que vai fazer com sua vida.

Sobre o blog

Falar de si e falar de um mundo melhor. Como as experiências pessoais de uma pessoa que já enfrentou tanto por ser quem é podem contribuir para que o mundo seja mais diverso e inclusivo?

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