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Mari Rodrigues

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Ser trans não deve ser uma sentença de morte

ECOA

26/10/2019 04h00

Na semana passada, uma jovem transexual foi agredida até a morte. O motivo: ser quem é. Há dois anos, a mesma jovem havia perdido seu irmão numa briga. O motivo: ele defendia a irmã de mais uma agressão por ela ser quem é. Como esta menina, que teve tolhidos seus sonhos de terminar os estudos e cursar medicina, algo de prestígio na nossa sociedade, tantas outras meninas como ela tiveram seus sonhos interrompidos pelo preconceito amargo e vil.

Trago um dado alarmante: 163 pessoas travestis e transexuais foram assassinadas em 2018 no Brasil, segundo dados da organização não-governamental Transgender Europe, tornando-nos o país que mais mata pessoas travestis e transexuais no mundo. Parece pouco, não? Comparando-se esse dado com o número de pessoas mortas no Brasil todo em um ano, sim, parece. Mas olhe novamente. Será que essas 163 pessoas morreram da mesma forma que as demais? Debrucemo-nos sobre isso.

Consideremos outros dados. Segundo levantamento da OAB, 82% das pessoas trans se veem obrigadas a evadir a escola, por uma série de razões: rejeição pelos colegas, preconceito dos professores, aversão dos pais, dentre outros. A baixa escolaridade que essa evasão forçada causa traz um outro dado: levantamento da ANTRA informa que cerca de 90% dessas pessoas estão se prostituindo, voluntária ou involuntariamente, o que, neste contexto, significa "falta de opção de trabalho".

Marginalizadas pela sociedade, a maioria destas pessoas, sem qualificação e sem perspectiva, percorrem caminhos pouco dignos, e isto nos traz ao dado mais chocante: a expectativa de vida de uma pessoa trans no Brasil é de 35 anos, vividos de forma penosa, contra os 75 anos que o IBGE calcula para o resto da população.

A menina de que trato no começo do artigo tinha 23 anos. 23 anos de luta interrompida. 23 anos passando por provações dia sim e dia também. Não venham me dizer que esta morte não podia ser evitada e que é fruto da violência geral que assola o nosso país, pois não é. É mostra da falta de um diálogo que ainda precisa ser realizado.

O diálogo pela sensatez. Pela dignidade de pessoas que tiveram a coragem de se assumir como são (isso não é uma opção, porque ninguém opta por sofrer sabendo que é este o destino que virá). É o diálogo aberto e franco sobre como podemos respeitar pessoas e sobre como podemos trabalhar nossos preconceitos para humanizar nossos juízos de valor e evitar que mais sonhos sejam interrompidos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre a autora

Estudante de Letras, Mari Rodrigues participa da Frente de Diversidade Sexual e de Gênero da USP. É apaixonada por comida do norte e por reciprocidade nas relações. Ainda está decidindo o que vai fazer com sua vida.

Sobre o blog

Falar de si e falar de um mundo melhor. Como as experiências pessoais de uma pessoa que já enfrentou tanto por ser quem é podem contribuir para que o mundo seja mais diverso e inclusivo?

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