Mari Rodrigues http://marirodrigues.blogosfera.uol.com.br Estudante de Letras, Marina Rodrigues participa da Frente de Diversidade Sexual e de Gênero da USP. Sat, 18 Jan 2020 07:00:42 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Sobre o quanto permitimos em nossas relações de amizade http://marirodrigues.blogosfera.uol.com.br/2020/01/18/sobre-o-quanto-permitimos-em-nossas-relacoes-de-amizade/ http://marirodrigues.blogosfera.uol.com.br/2020/01/18/sobre-o-quanto-permitimos-em-nossas-relacoes-de-amizade/#respond Sat, 18 Jan 2020 07:00:42 +0000 http://marirodrigues.blogosfera.uol.com.br/?p=74 Esta semana ouvi do meu terapeuta que deveria prestar mais atenção às atitudes que certas amizades têm comigo, e o quanto eu permito que estas atitudes sejam tomadas e se reproduzam. Atitudes agressivas costumam ser relevadas em nome da amizade, mas… por que não trabalhar em cima dessas agressividades para construir uma amizade mais saudável?

Estamos tão acostumados a “engolir sapo” em nossas vidas, seja no trabalho, nos estudos ou nas relações interpessoais, que consideramos isso como algo inerente à vida em sociedade. Mas será realmente que é preciso sempre relevar tudo? Qual o limite da paciência? O que podemos fazer quando alguém simplesmente te destrata? São perguntas de difícil resposta e eu não conseguirei respondê-las aqui. Mas podemos dar uma guia para tentar encontrar esse caminho.

Antes de mais nada, é preciso manter a calma e não tornar a situação ainda pior. Você não sabe o que o outro está pensando naquele momento e a situação não é a mais propícia para avaliar o que está realmente acontecendo. Depois que a poeira baixa, aí sim você pode ter uma visão mais profunda da situação e saber onde cada parte errou naquela relação para que se chegasse ao ponto de uma discussão.

As palavras do terapeuta ainda ecoam na minha cabeça e talvez por isso, eu tenha parado para avaliar certas coisas. Será mesmo que a gente precisa ter tanta permissividade com nossos amigos e botar um limite muito flexível para o que a gente pode suportar? Será que o nosso limite é o limite do outro, ou seria mais razoável definir em conjunto esse limite?

Cada um tem sua história, seus medos e traumas. Fico pensando o quanto de nossos problemas acabamos projetando no outro, seja por puro desconhecimento do que fazer, seja pela falta de autoavaliação das nossas mazelas. É um trabalho diário o do autoconhecimento, que serve para termos relações mais saudáveis e sem explosões.

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O tal do amor nos pertence? http://marirodrigues.blogosfera.uol.com.br/2020/01/11/o-tal-do-amor-nos-pertence/ http://marirodrigues.blogosfera.uol.com.br/2020/01/11/o-tal-do-amor-nos-pertence/#respond Sat, 11 Jan 2020 07:00:43 +0000 http://marirodrigues.blogosfera.uol.com.br/?p=69 Sinto que estou num momento da minha vida em que o tal do amor finalmente está fazendo sentido. Sabe aquela sensação boa de que algo saudável te rodeia? Pode ser só um começo, mas parece que já dura um bom tempo. Pode ser que eu precise manter a calma, e estou disposta a isso.

É o que eu queria falar hoje. Há um tempo, dei uma entrevista em que dizia não acreditar neste amor romântico dos filmes melosos. O amor sempre me pareceu mais próximo daqueles romances dos filmes franceses em que há, sim, uma relação de entrega, mas com pé no chão. Quando se vive a afetividade de forma desvirtuada, como se as pessoas apenas usassem as outras e as jogassem fora, como um brinquedo, fica difícil acreditar em relações sólidas em que o tal do amor prevalece. E ainda mais numa sociedade como a nossa.

E me lembro de quem não pode manifestar seu amor, por medo de represálias na comunidade em que vive. Há países em que a homossexualidade ainda é um crime punível com a morte e há o Brasil, onde um beijo trivial é condenado como safadeza, como escrevi em textos anteriores. Não duvido que essas pessoas também gostariam de apedrejar homossexuais nas ruas, para compensar a amargura de suas vidas tristes e presas a convenções. Triste!

Em outra entrevista, falei sobre o papel que o amor pode (ou não) ter sobre as pessoas trans, tão marginalizadas até mesmo em algo tão puro como um relacionamento. O mero fetiche pode ser superado? A curiosidade pode dar lugar a um sentimento verdadeiro? São questões que não sei se podem ser respondidas em mais ou menos dois mil toques. Mas vamos desenvolver.

Nós, pessoas LGBT+, aprendemos desde cedo que nosso amor é errado e impuro. Que vamos para o “inferno”. Alguns chegam a aprender que é melhor manter a castidade para não arder. Ou seja, se anular para evitar a fúria de um Deus que no fundo não é amor. E assim vivemos nossas relações neste mundo de “amores líquidos”: sem envolvimentos, sem sentimentos, sem sal…

Sinto que a própria comunidade deveria fazer uma autocrítica. Será que o tal do amor para nós é tão errado que devemos não amar e ser indelicados, como se pode ver em qualquer aparato de busca de relacionamentos? Será que também não vamos nos abrir ao sentimento e apenas satisfazer necessidades fisiológicas? Será que queremos isso? Ou no fundo quem está agindo de forma ridícula ainda tem dificuldade de desaprender esta moral que nos condena, e pior, a reproduz?

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Podemos ser versões melhores de nós mesmos http://marirodrigues.blogosfera.uol.com.br/2020/01/04/podemos-ser-versoes-melhores-de-nos-mesmos/ http://marirodrigues.blogosfera.uol.com.br/2020/01/04/podemos-ser-versoes-melhores-de-nos-mesmos/#respond Sat, 04 Jan 2020 07:00:13 +0000 http://marirodrigues.blogosfera.uol.com.br/?p=66 Neste réveillon uma coisa muito interessante aconteceu: encontrei uma pessoa conhecida na cidade, que tem pensamentos diametralmente opostos aos meus e mesmo contraditórios com a sua condição. Como era um ambiente pequeno, não deixei de cumprimentá-lo dando “feliz ano novo” e toda essa pompa e circunstância que o momento pede. Lembrei-o de quem eu era e até tiramos uma foto juntos para que ele mostrasse a um amigo em comum.

E isso me fez pensar que nesses períodos de confraternização, não somos tão virulentos em nossos pensamentos e até baixamos nossa guarda em favor de momentos de paz. E é sobre isso que eu quero falar hoje: podemos sim ser versões melhores de nós mesmos. E não apenas em momentos de reflexão e confraternização.

É difícil para muitos, eu sei. Mas podemos nos abrir ao diálogo, desde que ele não venha carregado de ódio e de preconceito. Podemos argumentar, se possível. Podemos discordar, e isso é bom para uma democracia saudável que tanto almejamos.

Outra coisa que podemos fazer para sermos cada vez melhores é repensar nossas atitudes. Todos temos alguma atitude que não nos faz bem, ou não faz bem a outras pessoas, ou ao ambiente. Ter esta autocrítica é importante para que possamos, antes de colaborar com o outro, estar em paz conosco.

Desconstruir preconceitos também é fundamental. Todos temos algum. E não adianta dizer o contrário. Conhecer melhor o outro e o que ele passa é fundamental para depois termos uma opinião qualificada a respeito. Estar aberto a novos conhecimentos nos faz ser pessoas melhores e mais engrandecidas.

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Os balanços que fazemos do ano que passou http://marirodrigues.blogosfera.uol.com.br/2019/12/28/os-balancos-que-fazemos-do-ano-que-passou/ http://marirodrigues.blogosfera.uol.com.br/2019/12/28/os-balancos-que-fazemos-do-ano-que-passou/#respond Sat, 28 Dec 2019 08:00:26 +0000 http://marirodrigues.blogosfera.uol.com.br/?p=63 2019 foi um ano muito ambíguo. Aconteceram coisas muito boas e coisas muito ruins. Nesta época de balanço, que sempre fazemos, das ações que cumprimos das nossas metas estipuladas ainda no final do ano anterior e das ações que surgiram no meio do caminho e que de alguma forma mudaram nossa vida, sempre é bom fazermos uma autocrítica do que aconteceu.

Uma coisa que tenho pensado bastante neste final de ano e que devo desenvolver ao longo de 2020 é sobre o critério com o qual mantenho as minhas relações interpessoais. Às vezes nos sentimos tão otimistas (ou tão carentes) que desligamos alguns filtros na hora de definir quem deve e que não deve compartilhar certos momentos conosco. E esta foi uma das lições que aprendi este ano: ter um critério mais apurado significa ter mais segurança e menos surpresas desagradáveis com as pessoas.

Outra coisa importante também foi aproveitar as oportunidades que surgiram. Ainda que não fizessem parte dos nossos planos de vida traçados no final do ano anterior, foram surpresas boas que trouxeram elevação e possibilidades de realizar novos sonhos, ou simplesmente as de ajeitar nossas vidas reviradas. E aqui vem mais uma lição: em caminhos inesperados surgem oportunidades incríveis.

Ser mais incisiva nas colocações foi de alguma forma importante para me colocar no mundo. E ainda que não agrade a todo mundo, nossas visões de alguma forma fazem uma diferença, e aqui fica mais um ensinamento aprendido: nem sempre vão gostar do que você fala ou do que você pensa, mas ainda assim, se isto fizer a diferença na vida de pelo menos uma pessoa, é válido exteriorizar.

28Tenho uma lista de pessoas que foram extremamente importantes neste ano para o sucesso nos caminhos que segui. Seria impossível listá-las todas aqui, então para cada uma delas que estiver lendo este texto, meu muito obrigada! Espero que continuemos em boa sintonia em 2020!

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E o que faremos no Natal? http://marirodrigues.blogosfera.uol.com.br/2019/12/21/e-o-que-faremos-no-natal/ http://marirodrigues.blogosfera.uol.com.br/2019/12/21/e-o-que-faremos-no-natal/#respond Sat, 21 Dec 2019 07:00:17 +0000 http://marirodrigues.blogosfera.uol.com.br/?p=58 Como diria a famosa música da época, “então é Natal, a festa cristã”. Tempo de alegria, de reflexão e de carinho.

Posso exemplificar o tal espírito do Natal num episódio ocorrido esta semana. Saí do ônibus e o motorista me buzinou e fez um gesto como me desejando um bom dia, e aquilo me fez esquecer o cansaço de ter ficado mais de uma hora no transporte, devido ao trânsito de São Paulo que nunca acaba.

Ao menos em tese, é isto que deveria acontecer neste período de final de ano. Mas o que temos visto ultimamente é um sem-fim de falta de amor e de falta de humanidade. Pessoas faltando-se ao respeito umas com as outras, mesmo numa época em que se comemora a ascensão de uma figura que ensinou amor e respeito aos outros, é no mínimo incoerente. Jantares de família já não são mais momentos de comunhão e sim de trocas de farpas. Especialmente, nos últimos anos, este limiar da tolerância às opiniões diferentes foi quebrado; será que nunca mais voltaremos a ser os mesmos?

Penso no quanto de privilégio que temos quando podemos nos sentar com nossos familiares para momentos de convívio de qualidade e por um momento esquecer as mazelas da vida, e só se divertir por um momento. Penso também naquelas pessoas que por sua condição, não podem mais partilhar de um momento “familiar” como diz à regra e agora buscam seu afeto em grupos de pessoas que, tão desrespeitadas quanto elas, se unem para partilhar suas dores e glórias, e se aproximar daquele conceito antigo, cristão, de amor ao próximo, tão esquecido nos discursos inflamados dos ditos cristãos.

Para este final de ano, deixo a reflexão (inclusive para mim mesma) de que não sejamos tão hipócritas. Vamos lidar com opiniões diferentes sempre, mas o respeito é primordial. Espero que consigamos canalizar nossas raivas e sentimentos ruins para realizarmos coisas boas no ano que chega e nos aproximarmos do conceito realmente cristão de amar ao próximo “como a ti mesmo”, ainda que isso pareça ser difícil com algumas pessoas e que com outras realmente não consigamos.

Um Feliz Natal para todes!

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É bom ouvir o outro de vez em quando http://marirodrigues.blogosfera.uol.com.br/2019/12/14/e-bom-ouvir-o-outro-de-vez-em-quando/ http://marirodrigues.blogosfera.uol.com.br/2019/12/14/e-bom-ouvir-o-outro-de-vez-em-quando/#respond Sat, 14 Dec 2019 07:00:30 +0000 http://marirodrigues.blogosfera.uol.com.br/?p=52 Organizei um evento na última semana. Era uma reunião de várias pessoas, representando vários coletivos, com a intenção de discutir as formas com as quais nós nos organizamos para termos um bom funcionamento. Havia grupos com um nível de organização bastante sofisticado, do tipo que fazem planejamentos de semestres inteiros, e outros que funcionam de maneira mais orgânica, se organizando conforme as demandas chegam.

Ao final do evento, todos saíram com a sensação de que a troca de experiências foi boa e de que aprenderam de alguma forma com estas experiências alheias a melhorar o funcionamento de seus grupos. E isso me alegrou bastante. Porque a ideia de juntar pessoas é essa mesma: sair com algum aprendizado ouvindo experiências de outras pessoas.

Quando estamos falando de grupos, ouvir o outro é importante. Porque as opiniões diferentes trazem novas formas de auto-organização que podem ser benéficas para o grupo. E se não der certo? A gente senta e discute novamente até sair algo que agrade o máximo de pessoas. Intercâmbios com outros grupos também são bons para o nosso próprio grupo, pois podemos aprender com o que deu certo (e com o que não deu certo) nestes outros grupos.

Lembro-me de como as pessoas dizem que voltam diferentes depois de passar longos períodos fora de casa fazendo cursos em outras cidades ou países. A troca com outras pessoas e culturas nos enche de gás para enfrentar novos desafios e questionar de alguma forma a cultura que não está boa na nossa sociedade.

E não precisamos ir tão longe, como num intercâmbio para outro país ou outra cidade. Só o fato de nos imergirmos em outras comunidades próximas, com outros anseios e outras experiências de vida, nos traz a reflexão sobre como temos as nossas próprias vivências. Tudo que nos leve a pensar um mundo expandido de culturas pode e deve ser incentivado para uma convivência mais permeável e menos restritiva.

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A dedicação às nossas ações e a importância das nossas redes de apoio http://marirodrigues.blogosfera.uol.com.br/2019/12/07/a-dedicacao-as-nossas-acoes-e-a-importancia-das-nossas-redes-de-apoio/ http://marirodrigues.blogosfera.uol.com.br/2019/12/07/a-dedicacao-as-nossas-acoes-e-a-importancia-das-nossas-redes-de-apoio/#respond Sat, 07 Dec 2019 07:00:12 +0000 http://marirodrigues.blogosfera.uol.com.br/?p=48 Nos últimos tempos, uma série de coisas estão acontecendo. Realizar ações de um coletivo de diversidade é cansativo e trabalhoso. Sobre isso eu quero falar hoje. Sobre a dedicação que nós damos às coisas que fazem os nossos olhos brilharem. No começo, tudo é uma maravilha. Você se empenha e quer fazer muitas coisas com o máximo de pique possível. Só o fato de pensar nas ações que você faz lhe deixa com animação e com felicidade. Só que esse deslumbre do começo sempre tem um final.

E aí chegam as complicações. Às vezes falta tempo, às vezes falta empenho, às vezes falta apoio. E é neste momento em que a gente se desanima, a gente se dá licenças para pensar se estamos no caminho certo. É o ponto de inflexão entre a euforia de fazer tudo com todo o gás e a maturidade de fazer o que é necessário dentro dos seus limites.

Naturalmente, isso é cíclico. Há momentos em que estamos mais eufóricos e há momentos em que estamos mais retraídos. Dosar uma moderação entre estes dois momentos é inteligente e sensato.

Montar redes de resistência também significa montar redes de apoio no meio do caminho. Os apoios que conseguimos são importantes, seja da família, ou dos amigos, ou de colegas de trabalho. É uma rede que vamos criando inconscientemente para nos ajudar em vários momentos, sejam eles bons ou difíceis. Ao longo da vida, vamos conhecendo pessoas e afinando nossas semelhanças e diferenças. Vamos aprendendo sobre quais são as pessoas em quem devemos ou não confiar e vamos tendo surpresas boas e ruins.

Trata-se de uma via de mão dupla. Estas pessoas que nos ajudam e às quais nós ajudamos sabem disso também, assim espero. Numa relação de troca, saber se doar com sensatez e receber com gratidão é possível e viável.

E lembrar disso é importante quando lidamos com coletivos, geralmente formados por pessoas com pensamentos muito díspares, ainda que todos convirjam para um objetivo comum. Lembrar que todos fazem parte de uma rede de apoio que vai nos fazer bem é crucial para o sucesso do coletivo, ainda que as opiniões sejam diferentes e os caminhos não agradem todo mundo.

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A metáfora do desenho da casa e as nossas noções sobre família http://marirodrigues.blogosfera.uol.com.br/2019/11/30/a-metafora-do-desenho-da-casa-e-as-nossas-nocoes-sobre-familia/ http://marirodrigues.blogosfera.uol.com.br/2019/11/30/a-metafora-do-desenho-da-casa-e-as-nossas-nocoes-sobre-familia/#respond Sat, 30 Nov 2019 07:00:23 +0000 http://marirodrigues.blogosfera.uol.com.br/?p=45 Participei de uma roda de conversa sobre permanência de pessoas trans na universidade e uma colega fez uma dinâmica muito interessante. Pegou pincel atômico e foi ao quadro branco para começar a desenhar uma casa, e pediu aos presentes que a ajudassem a construir a casa. Após isso, foi feita a discussão da casa e chegamos à conclusão de que a nossa casa desenhada não abarca o modelo de casa atual.

Nem todo mundo tem uma casa bonitinha de desenhos, com dois andares, e telhas de barro. Nem todo mundo tem pés de árvore no quintal. Nem todo mundo tem vista na casa, a não ser para outras casas, também sem quintal. E sem falar das famílias que são representadas nos desenhos. Geralmente são as famosas famílias de comercial de margarina, um homem, uma mulher, um ou dois filhos, e algum cachorro.

Minha intenção aqui não é criticar a família de comercial de margarina. Ela pode funcionar para bastante gente, e isso não é condenável. Porém, “essas novas famílias com terras molhadas com amor”, como diria Marina Lima, são pouco consideradas em nossas noções de família. Há famílias que conheço que não têm filhos, mas que têm cachorros. Há famílias com filhos, mas que não têm cachorro. Há famílias de só um pai, ou de só uma mãe. E há famílias de dois pais ou de duas mães, por que não? E por que não falar também das famílias que tem filhos com deficiências, ou famílias com pessoas gordas, ou famílias com pessoas transexuais?

E é justamente aí que é necessária a crítica. Qualquer família que não seja aquela asséptica do comercial de margarina (um homem, uma mulher, alguns filhos e um animal) parece ser abjeta para boa parte da população, e para uns, deve ser eliminada. Acho que o caminho não é esse. Quebrar a noção de “única família possível” é possível. Há várias famílias que seguem o estereótipo que não têm amor. Assim como há famílias de configurações diferentes da “família padrão”, onde o amor existe e é multiplicado.

Retomando um outro texto que escrevi sobre o carinho, as relações familiares, independentemente da família em que se está, devem ter o amor como norte. Famílias que se baseiam no ódio e famílias que odeiam outras que são diferentes dificilmente terão um ambiente harmônico e de carinho.

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Sem comentários http://marirodrigues.blogosfera.uol.com.br/2019/11/16/sem-comentarios/ http://marirodrigues.blogosfera.uol.com.br/2019/11/16/sem-comentarios/#respond Sat, 16 Nov 2019 07:00:39 +0000 http://marirodrigues.blogosfera.uol.com.br/?p=42 Um amigo recomendou que eu falasse sobre educação. E me pergunto sobre o que exatamente eu posso falar nesse assunto. Oportunamente, na semana passada tivemos a segunda prova do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio).

Lembro-me da polêmica desnecessária que uma questão do exame causou no ano passado. Era um texto que falava sobre o pajubá, uma forma específica de comunicação entre pessoas LGBT. De reações acaloradas a tentativas de desideologizar o exame, muita gente só viu a polêmica e não leu sobre o que se tratava a questão, que era uma indagação asséptica sobre o caráter sociolinguístico do tal dialeto.

Há pessoas que se incomodam só de ouvir a palavra gênero. Uma história muito engraçada e, ao mesmo tempo, assustadora contada a mim fala de uma discussão desnecessária numa sessão parlamentar, pois citava gênero alimentício; e a famigerada palavra não podia sequer ser pronunciada na frente de um cidadão. Engraçada, pois as pessoas não se dignam mais a entender contextos. Assustadora, pois as pessoas não se dignam mais a entender contextos.

Lembro-me também de uma aula interessante que tive recentemente sobre a questão do letramento e sobre essa linha tênue que divide uma pessoa letrada, aqui entendida como aquela que lê e escreve além do próprio nome e entende o que está lendo e escrevendo, de uma pessoa analfabeta, que, pela definição do censo brasileiro, é aquela que não sabe escrever um bilhete simples.

Em outra aula, houve críticas à forma como boa parte dos estudantes de Letras, cuja esmagadora maioria terá como saída a docência, escreve mal e tem uma noção muito fraca de gramática, e que isso depõe contra os próprios estudantes, tão atacados nestes últimos tempos.

Estas informações juntas e outras observações mostram que o brasileiro médio vai muito mal quando a questão é ler e interpretar textos e construir raciocínios críticos.

Basta ver qualquer caixa de comentários: muito lugar-comum e pouca coisa que realmente possa se aproveitar.

As críticas já não são mais construtivas e sim reforçadores de convicções violentas, facilitadas por este círculo vicioso formado pelas condições precárias da educação e pela instrumentalização da idiotice por pessoas mal-intencionadas. Não sou a pessoa mais gabaritada para falar sobre educação, mas enquanto as condições acima forem facilitadas, polêmicas desnecessárias continuarão acontecendo.

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Quatro tiros contra a sensatez http://marirodrigues.blogosfera.uol.com.br/2019/11/09/quatro-tiros-contra-a-sensatez/ http://marirodrigues.blogosfera.uol.com.br/2019/11/09/quatro-tiros-contra-a-sensatez/#respond Sat, 09 Nov 2019 07:00:24 +0000 http://marirodrigues.blogosfera.uol.com.br/?p=38 Tiro 1. O carinho das pessoas LGBT ainda é motivo de vergonha.

No final de outubro, um homem foi baleado num bar. O motivo: beijou outro homem em um bar. O atirador e outros dois homens, já presos, perguntaram se ele não tinha “vergonha de fazer isso na frente de pais de família. Aí eu me pergunto e depois pergunto a você que está lendo isso: carinho agora é motivo de vergonha? Estamos vivendo uma inversão de valores em que o amor é vergonhoso e a violência é demonstração de respeito.

O Brasil é um país violento. Basta ver o número de pessoas assassinadas todo ano, seja por crimes passionais, latrocínios, acertos de contas, balas perdidas, entre outros. O Brasil é um país ainda mais violento com pessoas LGBT, cujas demonstrações de afeto, ou sua mera existência, se formos falar de pessoas trans, parece dar o “direito” a pessoas que se dizem “de bem” cometerem as mais variadas atrocidades.

Tiro 2. Uma pessoa LGBT ainda não pode andar na rua sem medo.
Atitudes como estas só mostram que ainda estamos longe de ter um mundo igualitário. Quando pessoas andam com medo na rua apenas por ser quem são, vemos que fracassamos como sociedade e que algo precisa ser feito. Tapar os olhos para essa realidade e chama-la de mimimi só serve para perpetuar as violências que são cometidas diariamente contra a população LGBT.

Tiro 3. O Estado ainda é agente perpetuador de preconceitos existentes contra a população LGBT.

Um fato intrigante deste caso é que um dos agressores é policial militar. Exatamente uma pessoa que deveria zelar pela proteção da comunidade. E que não pensou duas vezes em atirar numa pessoa em público porque ela faria algo, em seu juízo, “vergonhoso”. E aí vemos que o Estado não cumpre o seu papel como defensor das liberdades fundamentais e da segurança das pessoas LGBT.

Isto acontece quando pessoas que cometem atrocidades são soltas quando cometem crimes de ódio, como provavelmente este policial será logo solto. Isto acontece quando a justiça, ela que deveria proteger os desvalidos, minimiza estupros e assassinatos motivados pelo ódio. Isto acontece quando instâncias provocadoras de políticas públicas para melhorar a vida destas comunidades marginalizadas são desfeitas por governos de viés autoritário.

Tiro 4. Ainda existe muito preconceito contra a população LGBT na sociedade. Basta ver qualquer caixa de comentários de alguém que ouse falar do tema LGBT, ou mesmo de qualquer outro tema polêmico: certas pessoas agem de forma virulenta quando confrontadas com uma realidade para eles inconveniente. Tentar informar as pessoas sobre a naturalidade da situação, que sempre existiu e sempre vai continuar existindo, e tentar educá-las contra o preconceito é nossa missão, que nem sempre será bem sucedida, mas se ela servir para que ao menos uma pessoa não queira apontar o revólver para outra, já teremos atingido nosso objetivo.

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